Não tenha vergonha de usar lápis e borracha para escrever sua história

Há pouco mais de um ano, eu comecei um curso de inglês. E tenho aprendido muito desde então. Não digo somente um novo idioma, mas também tenho experimentado momentos, talvez relativamente pequenos e insignificantes para este mundo, no entanto colossais e transformadores para mim. E tem sido assim, desde a primeira entrevista para saber meu nível de conhecimento na língua…

Ao chegar na entrevista a professora me faz algumas perguntas, pede-me para realizar um teste diagnóstico e depois minha opinião sobre aquele processo:

– E então? O que achou do teste? Fácil, difícil ou mais ou menos?

– É… entendi algumas coisas mas ainda fiquei com dúvida em outras. Mas acho que me saí bem. – respondi, com um sorriso amarelo no rosto.

Por fim, ela mediu os pontos do teste, e me disse:

– Você se saiu bem. Se quiser, pode começar do estágio do meio para frente… – dizia-me, enquanto apontava para a escala de níveis do método de ensino da escola.

– Sabe professora, eu tenho um pouco de conhecimento sim. Mas, não me sinto seguro para conversar ou escrever na língua. Parece que sempre falta algo…

Se possível, quero começar do zero.

– Do zero? Tem certeza? Você tem conhecimento suficiente para começar daqui para frente. Não é necessário começar do zero. Inclusive, o começo é muito simples. Muito básico, só letras e números, praticamente…

– Entendo professora, mas, dentro de mim, ainda falta algo. Não quero ser rude, mas eu sinto que preciso começar do zero para mitigar meus erros na língua.

Por fim, ela cedeu, e eu comecei o método de aprendizagem do zero (na verdade do estágio 2 para crianças de até 10 anos, onde já havia palavras, e não necessariamente somente letras e números).

Todos os exercícios são feitos à lápis e borracha. Nada de caneta.

Tem prazo estipulado para serem entregues e erros de ortografia (pontos, vírgulas, e etc.) também descontam pontos da minha nota final.

E então Cesar, o que aconteceu desde então?

Não muitas coisas. Mas das poucas que ocorreram estas me fizeram perceber o valor de se deixar o ego de lado e se sentar novamente, como criança, e aprender de verdade algo:

  • No meu segundo exame de pro eficiência eu sai de uma nota 7, do ano anterior, para uma nota 8,5;
  • Já consigo ver alguns filmes, com conversas lentas, sem legenda;
  • Já consigo identificar frases soltas nas músicas estrangeiras;
  • Já consigo ler quase completamente um artigo de jornal do exterior, sem ajuda de tradutores on-line;
  • Tenho aprendido a ser mais responsável e pontual com meus compromissos;
  • Tenho aprendido a ser mais zeloso com minhas coisas;
  • Tenho aprendido a ser mais empático com os erros das pessoas;
  • Tenho me esforçado mais para buscar novos conhecimentos e jeitos de se fazer melhor as coisas;
  • Minha confiança para escrever, falar e conversar com estrangeiros tem aumentado desde então.

O que você tem a ver com isso?

Bem, talvez nada.

Mas, deixe me contar um outro caso, que me motivou a escrever este artigo para você:

Quando eu era menor, enquanto aluno do ensino fundamental, na minha escola, havia um mito, que era passado por alguns professores ao alunos:

Quem escreve com lápis e borracha não vai conseguir nada, quando estiver lá fora querendo um emprego. Vocês TEM QUE SABER USAR CANETA! E NADA DE BORRACHA!

Na época, eu e meus colegas, temíamos sermos pegos escrevendo com lápis, apagando,  e escrevendo à caneta por cima.

Uma vez fui pego. E, para minha má sorte, por uma professora de geografia muito rígida.

Ela tomou o lápis da minha mão, me entregou uma caneta de seu bolso, e disse:

– Quero este mapa desenhado À CANETA! Entendeu? Na vida você não terá tempo para escrever à lápis e depois apagar e escrever à tinta!

– Mas professora, é difícil escrever a caneta… e quando se erra, não tem volta. Estraga-se o desenho. – tentei contornar a situação

– Exatamente! A vida é assim: se errar, não tem volta. Já era! Então acostume-se com a caneta!

Passado alguns anos, eu me encontrava na universidade, e algo me chocou nas aulas de cálculo:

Todos estavam utilizando lápis e borracha! :O

Curioso, e um pouco receoso, cheguei a professora e exclamei:

– Porque estão todos utilizando lápis e borracha? Se estão na faculdade deveriam já estar sabendo usar somente caneta! Não é?

Carinhosamente, a professora se virou e me disse:

– Sim, talvez. Mas os grandes problemas do mundo, os cálculos que vocês estudam agora, não foram escritos à caneta de uma só vez. Foram necessários gerações de lápis e borrachas, escrevendo e apagando, para que você pudesse estar aqui, hoje, estudando e tomando nota à caneta…

Não tenha vergonha de usar lápis e borracha. Todo mundo usa na vida. As pessoas só tem vergonha de falar que erram.

Meu caro leitor, estas singelas experiências me levaram a estar frente a você, escrevendo este artigo.

A partir delas quero lhe passar a seguinte máxima: não se preocupe em escrever sua historia somente à caneta. Use e abuse do lápis e borracha.

O ego, muitas vezes lhe dirá que é um erro, talvez, sentar-se entre os mais novos, e quem sabe também com os mais experientes, e querer aprender algo com eles.

Lhe dirá, talvez, que seu erro é imperdoável, não há volta, e etc.

Muitas pessoas poderão rir de você!

Mas, e daí?

Você estará crescendo aos poucos e com o tempo perceberá que o conhecimento é uma das maiores dádivas de nossa espécie neste universo. Nossa inteligência é o que nos permitiu estar hoje onde estamos e que nos impulsionará a ir além das estrelas em alguns anos.

O papel da vida está diante você. Seja ousado e continue utilizando seu lápis e borracha, sem medo ou receio, para escrever uma versão melhor de você a cada dia e apagar os erros do passado.

Escreva a história que você gostaria de ler aos seus filhos e netos algum dia. Seja ela com lápis e borracha, ou não.

Isso é o que menos importa. O que importa é continuar a escrevê-la.

Obrigado por ler.

Até breve.

🙂

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