Do umbigo ao ubíquo: um manifesto a década de 2020 (e além)

Era início de uma noite bem fria em meados de 2012 e meus colegas de curso e eu, sentados em roda, líamos em voz alta uma fábula moderna, onde um homem se comunicava por voz com um aparelho conectado à internet e este praticamente “lia a mente” do usuário sabendo quais eram seus gostos e interesses. Lida a fábula, nossa professora afirmou que aquele aparelho já existia e em breve estaria disponível. Descrentes, rimos todos daquela afirmação.

Agora, 6 anos depois, ao ver o  Google Duplex em ação, e aparelhos/tecnologias como o Alexa (Amazon) e o Siri (Apple) percebo o quão ingênuos fomos à época de não entender que o futuro já estava acontecendo.

Talvez você não tenha percebido, mas em menos de 10 anos nossa forma de viver e se relacionar mudou de maneira mágica se compararmos as décadas e revoluções ocorridas no século passado. E da mesma maneira, daqui há 10 anos, um novo mundo nos aguarda: carros e caminhões sem motoristas, geladeiras que farão compras por você, dispositivos conectados ao cérebro e outras partes do corpo, robôs do tamanho de uma célula programados para combater tumores, armazenamento de dados e informações em estruturas de DNA, viagens de lazer à lua e a marte, mineração e exploração de asteroides,… não, você não está vivendo um sonho e não é magia, é real!

Estamos entrando numa nova era, onde biotecnologia, nanotecnologia, informática e cognitividade estão prestes a se tornar uma única coisa. E para engrossar ainda mais a discussão, problemas globais como a fome, guerras, corrupção e epidemias ainda demonstram-se inabaláveis diante tamanha magia e progressos.

Mas até que ponto estamos preparados e/ou capacitados para lidar com esta nova era da humanidade?

Partindo desta pergunta e com base em alguns trabalhos e pessoas que tenho acompanhado pessoalmente e on-line, listei alguns pontos que acredito ser de atenção, solução e discussão na próxima década e além.

Educação

Acredito que a base para qualquer discussão valorosa, que traga resultados e progressos duradouros parte de uma conversa sincera, aberta e livre de preconceitos, e defesas partidárias e religiosas. E a educação é a base essencial para que este tipo de diálogo ocorra.

Para que isso comece acontecer, nas próximas décadas, serão necessários grandes esforços para erradicar o analfabetismo, em todas as suas fases. E atrelado a este esforço, aumentar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, em todos os níveis de educação, desde à pré-escola até as universidades.

Sem estes esforços estaremos à merce de um mundo cheio de pessoas incapazes de utilizar o potencial total das tecnologias à sua disposição e de desenvolver negócios e soluções sustentáveis que realmente venham mudar o mundo para melhor.

E se “um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la (Edmund Burke, 1729 – 1797)”, logo, vale ressaltar que a História, mais do que nunca, deverá ser sempre lembrada e pesquisada por todos na próxima década. E, por conseguinte, não venham trazer ao mundo uma nova Idade Média (que durou mais de mil anos!) de preconceitos e mortes junto ao progresso das próximas décadas.

Comportamento

É admirável e excitante saber que estamos produzindo tecnologias que cada vez mais encurtam distancias entre as pessoas e nos permitem ser mais produtivos em tarefas repetitivas.

No entanto, ao mesmo tempo percebo que estamos nos distanciando de nossas famílias e amigos mais próximos, desperdiçando nosso curto tempo de vida em troca de uma leve sensação de controle sobre a vida e autoafirmação para o mundo nas redes sociais e através de produtos/serviços.

Tristan Harris, ex-funcionário da Google e da Apple, tem defendido que as tecnologias em um futuro breve devam ser desenhadas e desenvolvidas para aumentar a presença e foco das pessoas no mundo real, e não no virtual. Sem este foco e presença, estaremos desenvolvendo um mundo cheio de pessoas ausentes, vazias, egoístas e sem propósito.

Enquanto lia “A Revolução do Design”, de Victor Falasca Megido, me deparei com a seguinte citação, atribuída à Marshall Berman:

“Não importa o que você vista,
Desde que esteja lá.”

No admirável mundo novo que estamos construindo, mais do que atualizar nossas redes sociais, devemos atualizar nossas presenças no mundo real. E ensinar as próximas gerações que as pessoas reais é, e sempre serão, a parte mais importante e valiosa da vida.

Trabalho

Com tecnologias e mega-computadores fazendo cálculos e muitas das nossas tarefas milhares de vezes melhores que nós, em um futuro próximo muitas das profissões que conhecemos hoje deixarão de existir ou terão sua procura reduzidas ao extremo.

É possível perceber também que muitas empresas e organizações já não buscam currículos por graduação, mas sim por competências. E as remunerações e salários já não são mais regradas exclusivamente por horas, mas por entrega e valor percebido.

As redes sociais impulsionaram o poder de escolha do consumidor, criando uma demanda absurda de produtos/serviços de excelência e o “pode ser” já está sumindo do vocabulário dos clientes.

O trabalho e a economia das próximas décadas não poderão ser mais pautados em relações unilaterais e segmentadas, extremistas, políticas ou religiosas.

Em 2016, um dos maiores corretores de Wall Street, Laurence D. Fink, enviou uma carta à cada CEO que possuí uma conta em sua empresa de ativos, a BankRock, onde dizia que, caso os valores à longo prazo destas empresas sejam insustentáveis e não-transparentes para o mundo, que elas se retirassem da empresa o quanto antes, e que a corretora não irá tolerar tais posicionamentos em suas negociações agora e no futuro.

O cenário para os próximos anos será de um convergência a uma economia de trabalhos e demandas especialistas, com foco crescente em serviços específicos, executados com ética, transparência, sustentabilidade, e excelência. E, acima de tudo, que ajude alguém de verdade, e não só no PowerPoint.

Nosso planeta

Quase dois séculos foram suficientes para desestabilizarmos o clima, a flora e a fauna de nosso planeta por completo. E por fim o débito chegou até nós. E esta dívida deve ser quitada o quanto antes, porque o único planeta que conhecemos em todo o Universo que abriga a vida como a conhecemos é a Terra.

A economista Kate Rawort, vem defendendo que nossa atual economia está priorizando de forma errada os indicadores do progresso humano. Ela relata que o PIB já não é indicador suficiente para determinar a maturidade do progresso humano. E que o sistema ideal para nos salvar de um futuro obscuro e incerto é a mudança radical para uma economia distributiva e que priorize produtos/serviços que se regenerem ou sejam reutilizáveis. E que os valores da próxima geração estejam em torno de participação, pertencimento, cultura, liberdade, lazer, criatividade e propósito de toda sociedade humana.

Nas próximas décadas, nosso trabalho e responsabilidade para preservar e perdurar a existência dos humanos e de toda a vida na Terra só esta aumentando. Desenvolver tecnologias e soluções que resolvam estes problemas devem estar como prioridade na nossa agenda nas próximas décadas.

E além

Saber que o futuro está acontecendo e que estamos fazendo parte dele da um frio na barriga, uma mistura de medo e ansiedade, em busca de saber como será o amanhã que estamos desenvolvendo.

Em breve, estaremos conquistando novos planetas, com a primeira parada programada para Marte. Talvez consigamos encontrar ainda na próxima década uma solução definitiva para a AIDS e para a infinidade de tipos de cânceres. E, quem sabe, os povos de todo o mundo nunca mais sofram com a fome e as guerras. Até lá, nosso papel e responsabilidades ainda estarão de pé.

Para a próxima década, e as do porvir, aguardo surgir homens e mulheres de todos os cantos da Terra, do mais rico ao mais pobre, do mais instruído ao menos entendido, do mais capacitado ou ainda nem tanto, e que através deles, de suas ações energéticas e sem medo de fazerem acontecer e vestirem a camisa, surja o amanhã que por milênios vem sendo construído e almejado: um mundo de paz, próspero, feliz e universal (sim, que alcance outras civilizações além de nosso planeta).

E você que me lê, onde estará nesta próxima década? Qual será o seu legado? Quais outros pontos devem ser lembrados à próximas gerações? O tempo de agir é agora!

Vamos juntos construir um mundo mais ubíquo, e cada vez menos “umbigo”.

Até mais!

🙂

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